Como se explica Hilda Hilst? (eu numa fase hilstiana)

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Fico besta quando não entendem Hilda Hist. A mulher por trás de “A Obscena Senhora D.”, “O Diário Rosa de Lory Lamb” e “Kadosh” (entre outros tantos) foi quase uma completa persona estranha e inacessível para sua geração. Hermética, por assim dizer, que assim diziam.

Estranho é que o problema, para alguns, era a falta de pontos, vírgulas (assim como a ausência de letras maiúsculas para valter hugo mãe) e, para outros, a complexidade de seus personagens e, por consequência, pensamentos. A mulher que não conseguia gostar de um só homem por muito tempo; a mulher que teve o pai esquizofrênico e morria de pavores de ficar louca; a mulher que falava de sexo; a mulher que se retirou de São Paulo para ir morar em uma espécie de sítio (Casa do Sol), com vinte cachorros, quase sozinha, para escrever; a mulher que era viciada em física e um dia descobriu que dava para ouvir vozes do Além por meio de gravações; a mulher que encantou Vinicius de Moraes e Drummond, a mulher Hilda Hilst, ou HH; a mulher que foi pouco lida; a mulher que não vendia nada; a mulher que arranjou brigas com os editores; a mulher que sabia e conhecia o valor de sua obra; a mulher que se jogou momentaneamente à literatura erótica para ser ouvida (e “rida”); a mulher que não foi sabida por muitos, hoje, é compreendida de maneira primordial. Mal sabia ela (ou sabia, quando dizia: “daqui a cinquenta anos vai ser ótimo, eu famosa, na cova e tudo”), infelizmente, que hoje seria tão citada (quase) quanto seu amado e querido amigo Caio Fernando Abreu. O que, aliás, depois desse compilado de histórias, me faz ter vontade de criar um facebook ou instagram com seus dizeres por aí.

Por conta de um vídeo, esses dias me peguei relendo o livro “Fico Besta Quando me Entendem”, um compilado de entrevistas, organizadas por Cristiano Diniz, de um período que data de 1952 até 2003 (um ano antes da morte da escritora). Que nos permite relembrar e conhecer trechos incríveis, frases descaradas, personalidade clara e, principalmente, o desenrolar e crescer da flor Hilda Hilst que, depois de muita “pancada” do mercado editorial (e da vida, claro) foi se tornando difícil, hermética de verdade, mas aos poucos mais conhecida.

A mulher que não gostava de aparecer, que “não queria ser conhecida, queria ser lida”. A mulher que daria muito ensinamento a alguns escritores que hoje não são lidos, mas são aparecidos… A mulher Hilda que foi nos mostrando seu medo da morte, seu medo de bucetas, seu esquecimento sobre o sexo, sua humanidade.

Neste livro (e em todos que Hilda aparece – mesmo que indiretamente) nos é mostrado a complexidade do ser humano, das nossas diferentes visões sobre a vida, do mercado editorial, do mundo, dos escritores, de tudo. Em uma edição da editora Globo (pelo selo Biblioteca Azul), com capa dura e desenhos de Hilda que, quando em vez, aparecem em meio a entrevistas que vão grudando a gente, página por página. Uma organização impecável, um livro que traz Hilda como era. Um daqueles livros que dá dó de acabar. A tristeza pelo fim do livro foi tanta, que saí caçando outras entrevistas, outros livros, outros títulos da escritora que se aproximava do leitor, mesmo sem querer, por se tornar poeta, por quebrar “a barreira invisível entre quem lê e quem escreve” (segundo o crítico José Castello), por não simular, por não se exigir, por tratar literatura como literatura. Mesmo.

p.s.: Falando nisso, de 28 de fevereiro a 21 de abril, no Itaú Cultural, em São Paulo, tem exposição incrível sobre Hilda. Pra entender melhor.

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postado por Taty

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