Sobre ver a miudez das coisas

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Juliana Pina (http://jupinac.wix.com/julianapina)

“Cruzei com uma menina muito nova, devia ter uns dois anos, que vinha brincando no sentido contrário. Ela vinha cumprimentando a grama, as plantinhas, “boa dia graminha”, dizia ela. Ou seja, nessa idade, somos todos pagãos, e nessa idade somos todos poetas. Depois o mundo se ocupa de apequenar nossa alma”. 

Fiquei realmente chateada com a morte do escritor Eduardo Galeano. Isso porque, de todas as pessoas envolvidas com a literatura, era ele quem sabia “olhar através do buraco da fechadura” do mundo. E, no final das contas, enxergar a pequenez das coisas não é nada fácil.

Nesta busca eterna por escritores que enxergam a vida através da inocência, também dá pra lembrar de Manoel de Barros, escritor&poeta que nos deixou depois de 50 e tantos anos de pura sensibilidade, “achei que os eruditos nas suas altas abstrações se esqueciam das coisas simples da terra”. E nos esquecemos sempre mesmo, Manoel.

Esses dias me vi sofrendo e pensando, “mas, o que é isso? Já passou por tanto pior”. Daí, no meio da conversa entre cafés, a resposta veio, “já é adulta. A sofrência dói mais. E com ela vem o medo do futuro”. Não deveria, mas isso é quase consequência do crescimento. Sofrer é ser adulto. Se acostumar é ser adulto. Ver o lado negativo é ser adulto. E, quando vem alguém e percebe que a pequenez do mundo que é importante, a gente fica assim, meio sem palavras, meio na loucura, achando que – a qualquer minuto – vai parar de funcionar. Mas, Galeano, Manoel e tantos outros nomes, passam por nossas vidas pra mostrar que ainda vale a pena.

Quando leio um poema do ator&escritor&poeta Gregório Duvivier, dizendo “passa uma avó / que nunca teve netos por um feirante / que não se casou e dá olá de longe / para um apontador do jogo do bicho / que perdeu a mão de trombose e todos / seguem carregando suas tristezas / dentro de sacolas de plástico”, me pego pensando que a inocência e sensibilidade devem ser como enxergar o que não se vê, como ver a vida que ninguém vê, ou, como já disse Eliane Brum, ver as piores deformações, que são as invisíveis. E como dói enxergar assim.

“Ser capaz de olhar o que não se olha, mas que merece ser olhado: as pequenas, as minúsculas coisas de gente anônima, de gente que os intelectuais costumam desprezar. Esse micro-mundo onde eu acredito que se alimenta de verdade a grandeza do universo. Ao mesmo tempo que sejamos capazes de contemplar o universo, através do buraco da fechadura — ou seja, a partir das pequenas coisas é possível olhar os grandes mistérios da vida. O mistério da dor humana, mas também o mistério da persistência humana, às vezes inexplicável, de lutar por um mundo que seja a casa de todos e não a casa de poucos – e o inferno da maioria. A capacidade de beleza, a capacidade de formosura das pessoas mais simples, às vezes mais singelas, tem uma insólita capacidade de formosura, que às vezes se manifesta em uma canção, em um grafite, numa conversa qualquer — esta que praticam as crianças. Acontece que depois nós, os adultos, nos ocupamos em transformá-las em nós mesmos, e aí destruímos a vida delas. Mas, temos que ver oque é uma criança, não? São todos pagãs”.

Que exista, então, um mundo onde todo mundo enxergue com microscópios.

3 comentários em “Sobre ver a miudez das coisas

    • Supeeeeeeer valeu!! Já inseri lá! Calhou que não sabia quem era, erro meu, sorry! E super obrigada pelo elogio, fico muito feliz! <333

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