Bruna Vieira vs. Bruna do blog: Uma entrevista sobre pessoas reais

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sendo fofas: Eu, Bruna e Luanda.

Conheci a Bruna em uma entrevista em 2013. Ela tinha acabado de lançar seu primeiro livro, “De volta aos Quinze”, mas já era um sucesso com seu blog “Depois dos Quinze” e toda a marca que envolve seu nome.  Mas, por mais famosa que pudesse ser, foi no seu apartamento, em meio a conversas sobre expectativas, que fui notando que a Bruna por trás da menina do blog era ainda mais legal.

Lembro, então, que saí aquele dia com uma pulga atrás da orelha. Eu só podia publicar uma matéria sobre seu livro, mas queria mesmo era poder sentar e conversar sobre coisas aleatórias da vida, seus gostos pessoais e sua empreitada na internet. A oportunidade, claro, surgiu com a ideia desta coluna, aqui no blog do Torrada, onde posso levar escritores para seus restaurantes preferidos onde podemos comer muito e conversar sobre qualquer coisa.

O favorito da Bruna é o brasileiríssimo América, “e o da Paulista, que é maravilhoso”, lugar em que, se não estiver fisicamente, está pedindo via delivery direto de casa, principalmente quando ainda morava sozinha em um apartamento aqui em São Paulo. Em meio à massas e sobremesas maravilhosas, além de fazer parte de uma pequena comemoração do restaurante que – esse ano – completa 30 anos de existência-, papeamos sobre tudo um pouco, durante – pasmem – quase cinco horas seguidas.

A conversa completa segue abaixo, mas é bom adiantar que transcrevê-la aqui me garantiu boas risadas e, ainda, me fez lembrar das comidas maravilhosas que Bruna serviria em seu casamento (ela é assim, se a comida é boa ela fala que, quando se casar, vai ter aquele prato).

Quem é Bruna Vieira?

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Eu fui fazer uma entrevista com você em 2013 e lembro de termos conversado muito sobre fazer comida. Como gravamos na sua casa, você até me mostrou seus “deliverys” preferidos e as comidinhas que sua mãe, quando vinha visitar, deixava pronta. Mas, analisando bem, eu tenho a impressão de que você é uma pessoa que gosta tanto de companhia e família a ponto de fazer esse momento do almoço ou do jantar algo muito compartilhável para ser feito só por você, no seu apartamento, sozinha em São Paulo. É isso mesmo?

Bruna: Com certeza! Porque comer sempre foi uma coisa que reuniu a família lá em casa, e eu tenho capacidade de aprender a cozinhar e de fazer essas coisas sozinha, mas eu prefiro gastar esse tempo que eu gastaria fazendo comida com outras coisas, porque eu fazer isso sem ninguém me deixa bem chateada.

Por exemplo, ir ao supermercado era um momento que eu saía com a minha mãe, então eu nem gostava de fazer aqui em São Paulo porque eu me sentia solitária. E eu comecei a morar sozinha muito cedo, então eu acho que é meio involuntário essa falta, sabe? Acho que supermercado ainda é o melhor exemplo, porque quando eu era pequena tinha um dia para ir comprar as coisas e a minha mãe fazia disso um momento especial onde eu podia escolher a marca de alguma coisa da lista. E, eu lá pequena, ficava horas escolhendo qual eu levaria pra casa. Eu me sentia adulta, era um momento de família, um momento pra compartilhar, então eu não consigo separar, não.

E engraçado que você fez o processo quase contrário de quando crescemos, né? Normalmente a gente espera até fazer 18 pra sair de casa e ter a tão sonhada liberdade. Mas, você se mudou um pouco antes e, assim que conseguiu, voltou a morar com seus pais por livre e espontânea vontade. Chegou até a trazê-los do interior de Minas Gerais para uma casa em Atibaia, onde não seria tão longe de São Paulo e todo mundo poderia ficar reunido… Como foi isso pra você?

Bruna: Acho que liberdade é uma coisa muito relativa. Eu sou livre mesmo morando com meus pais, mas acho que eu sou independente financeiramente e profissionalmente, mas não sou independente emocionalmente. Os meus pais são minha base. Acho que enquanto eu puder deixá-los próximos a mim, não tem porque eu ficar longe deles. Eles batalharam muito pra me colocar em uma escola boa, pra eu ter tudo do bom e do melhor, então eu acho que esse é o meu jeito de retribuir.

Então, quando eu fiz a proposta pra eles virem pra São Paulo, todos nós estávamos passando por um momento delicado. Meu pai trabalhou a vida inteira (ele é serralheiro) e estava em uma época que não podia trabalhar tanto que nem fazia antes. E eu estava numa boa fase profissional e também precisava de ajuda. Então, se eu tinha que contratar alguém pra me ajudar, porque não a minha própria família, sabe?

Mas, as coisas que eu vivi foram muito importantes para a minha formação. Dividir apartamento, economizar dinheiro e conquistar a casa própria… Eu cresci muito, hoje sou outra pessoa graças a essas etapas.

E você comprou a casa lá?

Bruna: Eu precisava de uma coisa muito específica pra eu poder gravar e meu pai poder trabalhar. Então, eu comprei um terreno em Atibaia e estou juntando dinheiro pra ir montando. Enquanto isso alugamos a casa que estamos agora. Mas, é um processo, né? A gente está trabalhando junto, indo aos pouquinhos, fazendo a coisa passo a passo.

Você é uma das únicas blogueiras que eu conheço que nunca deletou seus posts antigos, fotos e etc. Como é isso pra você?

Bruna: Imagina, eu não edito nem os primeiros posts que tinham vários erros de português. O objetivo do “Depois dos Quinze” é relatar a minha experiência e, naquela época, era assim que era. Eu errava coisas simples e minha vida era a escola, o menino que eu gostava e brigas com a família. É claro que o blog foi crescendo e agora eu falo de outras coisas, mas é muito legal isso. Eu acho que quando a gente tem um blog aquilo é uma história e não há uma história do nada, é algo que vai crescendo. Até quando me perguntam sobre como fazer sucesso, eu acho que é isso. Não é esperar que venha do nada, sabe? É ir crescendo, ir conquistando o público. Uma coisa que faz sucesso muito rápido, cai muito rápido também. E o legal do “Depois dos Quinze”, acredito eu, é que é uma história real que as pessoas acompanharam em tempo real durante seis anos. É um sentimento de amizade mesmo, sabe?  Várias vezes eu estava até no shopping comendo sozinha e quando vinha alguma leitora, eu a convidava pra jantar comigo. Porque são elas que me acompanham, ás vezes até mais do que as pessoas que convivem comigo pessoalmente, então essa relação é muito valiosa.

E é algo muito mais diferente hoje em dia com a internet… Você lida tranquilamente com essa expectativa dos seus fãs?

Bruna: Eu amava muito Rebeldes, por exemplo. E qual era a chance de eu encontrar a Dulce Maria na adolescência? Hoje em dia, essas pessoas são fãs de gente na internet. E elas podem encontrar os ídolos em qualquer lugar, porque é muito mais real. Lógico que não é todo mundo, mas a internet trouxe uma referência próxima, então eu não quero perder essa relação. Eu tento sempre me colocar no lugar da leitora: Seria legal assistir esse vídeo, se eu tivesse quatorze anos? O que eu faria se encontrasse meu ídolo em um restaurante?

E você sempre teve essa visão? Eu lembro de um vídeo super antigo seu onde você dizia que seu sonho era continuar falando com o público teen para sempre, mas você ainda era uma adolescente. Algo mudou desde lá?

Bruna: Mas, sabe qual é a sensação que eu tenho? As pessoas costumam falar que eu tive coragem de seguir esse caminho, mas na verdade foi dar a cara a tapa, eu não tinha muitas expectativas, eu só fui fazendo. E eu gosto muito de falar disso e lidar com as pessoas que também estão fazendo ou querendo fazer a mesma coisa. Que nem, eu tenho uma coluna na Capricho. Lá eu posso até falar de um tema que já foi abordado, mas eu posso ter acabado de passar por aquilo, então o jeito que eu vou falar é diferente. Eu gosto de falar com esse público e compartilhar todas essas dúvidas, felicidades e angústias. Como se fosse uma conversa com uma amiga. E, nessa linha editorial, poucas pessoas conseguem fazer algo natural. E eu faço isso há muito tempo, porque eu comecei ainda adolescente, então eu gosto muito de sentir que estou sendo referência para alguém. Eu também tinha a minha referência quando pequena, mas era muito distante. Então, essa experiência é muito importante pra mim e eu não quero deixar de falar com esse público tão cedo.

Lembro que um dia você tinha comentado que dava medo de haver um interesse, da pessoa não notar quem é a Bruna por trás da marca “Bruna Vieira”… Como está isso pra você? Como é o processo de fazer amizades?

Bruna: Agora que eu estou perto da minha família é bem mais fácil, né. Meus melhores amigos são eles. Mas, também tem pessoas que eu conheço que não são do meu meio. E eu busco muito isso. Sempre conhecer pessoas que não sabem do meu trabalho. Porque eu acho que a gente tem que treinar nossa capacidade de conquistar as pessoas por quem somos é e não por aquilo que conquistamos. É claro que aquilo que você conquistou também faz quem você é, mas se você só tem amigos por isso, fica muito difícil. Eu tenho muitos amigos que eu conquistei graças ao blog, leitoras também, mas não pode ser só isso!

E você sempre fala sobre possíveis experiências novas que gostaria de passar. E a faculdade? Quer fazer? Já sabe o que vai fazer?

Bruna: Eu tenho dúvida em relação ao curso, mas definitivamente eu quero ter essa experiência. Eu sempre pergunto, inclusive já perguntei pra você, sobre o que a faculdade trouxe pra cada um. Mas, eu acho que é uma experiência que todo mundo deveria passar, sabe? É algo importante para a formação de um indivíduo. Se você conversa com alguém no primeiro semestre e depois no último, já será outra pessoa que terá crescido muito.

Por essas diferentes opiniões eu ainda não decidi o que vou fazer, mas tenho algumas apostas como Cinema – eu amo criar roteiros-, psicologia ou algumas outras coisas que eu fico curiosa para entender como funciona. Então, eu não sei quando vai acontecer, mas vai. Só quero esperar minha vida dar uma acalmada.

“Por mais que o blog tenha feito sucesso, eu ainda continuo sendo aquela menina do interior que coloca a família na frente de tudo e de todos”, conta, “E isso faz parte de quem eu sou e do sucesso que eu tive com o blog. No final das contas, os leitores não querem só saber de experiências, eles querem alguém que eles gostem vivendo aquilo e compartilhando. Então, antes de viver aquilo, você tem que ser alguém que eles gostam, entende esta linha de raciocínio?”.

E está uma loucura, não é?

Bruna: 2015 foi maravilhoso, eu lancei um livro, participei da bienal, fiz vários projetos incríveis, mas tudo passou tão rápido que eu mal notei, só fiquei pensando: Cadê esse ano que tava aqui? Quando eu morava aqui em São Paulo ainda eu só estava trabalhando, preferia o blog aos amigos, uma loucura total. E as coisas foram passando por mim. Então, eu comecei a perceber que eu preciso fazer um esforço pra parar de trabalhar um pouco, foi minha meta da virada do ano de 2014 para 2015: Que eu ia falar mais sim. Aceitar mais convites, sair mais de casa, conversar mais. Eu estava muito presa no meu próprio mundo, mas é importante ter a vida pessoal também. Senão eu ia enlouquecer, ia entrar em crise.

E como é pra você essa Bruna mais pessoal, que gosta de coisas que não tem tanto a ver com o blog e a Bruna do blog? Dá pra separar?

Bruna: Certas coisas não precisam ser mostradas, sabe? Eu tenho um cuidado a mais para evitar que certas coisas apareçam, que eu acho que não combina, mas ao mesmo tempo é muito natural porque eu sou a mesma Bruna que aparece no “Depois dos Quinze”.

Eu só tenho tentado expor menos a questão de relacionamentos, pessoas, etc. Acho que a curiosidade das meninas tem que parar em mim, sabe? Não tenho que envolver outras pessoas nisso. É claro que meu namorado, por exemplo, costuma aparecer e tudo o mais, eu não o excluo de nada, mas não precisa forçar aquela demonstração. E é muito complicado separar as coisas, mas eu acho que só assim você consegue se manter com os pés no chão.

Até porque o blog já é uma empresa, né? Tem uma equipe e tudo o mais… Você se considera uma empresária?

Bruna: Eu tenho CNPJ, né? Então sou empresária (dá risada). Mas, eu acho que eu sou sim. Afinal, eu já tenho que trabalhar com fluxo de dinheiro, pequenos investimentos (como câmeras, publicidades, etc.) e tenho que tomar decisões como empresa. E é totalmente natural porque o blog está crescendo. Mas, eu quero muito aprender ainda mais sobre isso. E a equipe ja foi maior, né? Mas, eu escolho colaboradores que têm a ver com o blog. É como se fosse um post meu porque há toda uma etapa editorial e eu controlo tudo. Eu não consigo saber de todas as novidades ou outras áreas, então é muito importante ter uma equipe para me auxiliar nisso.

Mesmo assim, eu planejo ter uma equipe física um dia. Não pra virar uma revista ou algo do tipo, mas pra conseguir ter conteúdo variável, maior frequência, etc. Eu acho que, até então, eu ainda não estava pronta pra dar esse passo, de contratar funcionários. E engraçado que eu nunca tive uma experiência de ter chefe… E isso é algo positivo e negativo, ao mesmo tempo. Negativo porque você não tem ninguém te guiando, então você tem que aprender com seus próprios erros, tem que errar pra você saber. E eu errei muito ao longo desses seis anos, com campanhas, equipamentos… Mas, eu aprendi muito também e acredito que até o final do ano estarei pronta pra transformar o “Depois dos Quinze” em uma empresa de verdade.

E a Bruna no futuro?

Bruna: Eu quero acompanhar as tendências. Daqui há um tempo podem inventar algo totalmente diferente e eu vou me adaptar. Mas, eu gosto muito da internet. Acho que tem tantos caminhos ainda que dá pra seguir e eu não quero sair tão cedo disso. Mas, uma coisa eu posso garantir, texto pra mim é muito valioso e a única coisa que eu tenho certeza é do meu blog, então jamais vou abandoná-lo.

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